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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Voltando pra casa

Rumo a Londrina, 30 de julho de 2012.

É hora de chacoalhar a poeira... é hora de voltar pra casa...
É hora de matar tantas saudades...
É hora também de nos encontrarmos conosco mesmos e com todas as mudanças ocorridas em nós nos últimos dias...
Foi impactante e lindo observar cada membro do Time se modificando, desabrochando, reconhecendo a presença de Deus num lugar tão seco e sedento...
Essa observação e convivência enriqueceram e modificaram meu ministério e minha vida pra sempre...
Observar o Pr. Pedro liderando o grupo de homens com versos citados de cabeça, com uma habilidade linda em manusear a Palavra e usando seu casamento como testemunho...
Perceber a liderança doce, firme e singela da Rute ao trabalhar temas tão delicados e íntimos com as mulheres...
Ver a Jacque desenvolvendo seu dom com as crianças, se doando até o ultimo fôlego ao cantar, educar, ensinar, contar histórias e mais histórias àqueles pequeninos...
Ver a Michele colorindo o ambiente com sua presença doce e tranqüila, com um olhar de artista, se doando a todo o tempo àquelas crianças...
Sentir a preocupação e tristeza da Mariluz ao perguntar em todas as refeições se havia comida suficiente para todos ali, e também dar muita risada com sua alegria contagiante... (estou terminantemente proibida de chamá-la de Dona Mariluz... hehehe)
Ver o nascimento de uma missionária, a nossa Bruna, que numa fração de segundos colocou todos os seus estudos em prática, salvando uma criança que nascera no meio do mato, numa noite fria...
Reconhecer no olhar do David uma dor na alma e um amor profundo pelo outro, um encontro com Deus nunca antes experimentado, um dom de servir a todos e a todo o tempo com um sorriso sempre no rosto...
Me compadecer das lágrimas do rosto do Romeu que rolavam sem parar... e vê-lo desenvolver seus dotes preparando balões para as crianças, cozinhando para o time e ainda aconselhando homens sobre o matrimônio...
Ao ver o Adriano auxiliando no ministério com os homens e se aventurando a dirigir em estradas nunca antes percorridas...
Ver a euforia da Ana querendo se inserir na cultura de uma forma contagiante e particular, tirando todas as fotos possíveis e impossíveis (e obrigada por todas as fotos tiradas... amei...)
A minha oração meus queridos é que todas as transformações ocorridas nesta viagem possam continuar renascendo no coração de vcs todos os dias...
Que tenhamos sabedoria emocional e espiritual para voltar à rotina do nosso dia a dia com a aptidão de continuar vivendo a loucura do evangelho e entrega pelo outro em terras brasileiras...
Ao olhar pra trás meu coração se enche de alegria, de paz, de contentamento... Se enche de saudades e agradecimento ao Deus que esteve conosco em todo o tempo... pois tudo o q aconteceu entre nós e através de nós foi obra de sua bondade e para louvor de Seu nome...
Não há nada melhor que se entregar totalmente a esse Deus de amor, que nos ama apesar de nós mesmos, e ainda nos usa apesar de todas as nossas limitações...
Alegria em ser Dele e por Ele viver os meus dias... e muiitta alegria por ter compartilhado alguns deles com vcs...
Bjos com saudades de todos...
Ana

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Africa 2012 - Bunga/Espungabera

Avião de Beira para Pemba, 15 de julho de 2012.
A primeira etapa da nossa jornada se foi. O time se dividiu em três partes... Eu estou indo para o norte visitar minha família em Pemba e Mocimboa da Praia, David ficou em Espungabera e o restante seguiu para a Casa das Formigas em Maputo.   
Abraços foram dados, promessas de reencontros em tantas casas espalhadas pelo Brasil já foram pré-agendados... a primeira despedida já ocorreu...

Nosso time formado de 11 brasileiros, pertencentes a igrejas diferentes, com personalidades distintas e ministérios diversos foi uma prova que Deus une e abençoa aqueles que estão dispostos a servir. Nos encontramos no aeroporto, alguns pela primeira vez, e de lá partimos como uma família.
Bunga foi nosso lar por 4 dias, marcados por horas intensas de trabalho.... Nos dividimos e tivemos ministérios para homens, mulheres e crianças.
Encontramos mulheres se ajoelhando para serem ouvidas pelos homens, mulheres que trabalham de dia e de noite para suas famílias, homens disseminando uma cultura machista e castradora por falta de instrução e conhecimento, crianças analfabetas, carentes e famintas... o desafio a cada minuto era imenso...
Com as mulheres, homens e casais, ouvimos confissões, desabafos e o quanto alguns aspectos da tradição e cultura trazem falta de paz e qualidade de vida pra esse povo. Foram trabalhados aspectos de casamento, papeis a serem desenvolvidos na família, educação escolar, higiene, saúde da mulher, violência, e tantos outros... 
Novas ideias, perspectivas e luz através da Palavra foram disseminadas dia a dia, e já pudemos ver algumas mudanças, outras serão realizadas através de muita, muita oração.... A semente foi plantada e temos certeza que o Espírito Santo vai continuar agindo nas mentes e corações.
 
O trabalho com as crianças foi um sucesso. Historias foram contadas, músicas dançadas... foram tantas atividades que as crianças aguardavam a surpresa do outro dia... O fantoche chamado “Sambo” da nossa amada missionária Didi veio visitar novamente o povo, que o aguardava ansioso.... Era uma alegria ver as crianças correndo atrás das bexigas e bolas, com os dedinhos pintados de tinta... Foi fascinante ver seus olhinhos brilhando a cada historia, a cada contato com o novo...
Ao deixar Bunga percebemos o quanto o Brasil não nos fez falta e o quanto uma atitude de flexibilidade, otimismo e abertura de coração para o agir do Espírito em nós fazem toda a diferença....

Nosso time não reclamou dos banheiros com buraco no chão, dos banhos com os pés na terra, das noites em sacos de dormir, dos cabelos duros de terra, das mãos sujas e pés cansados... Foi agradável perceber a interação e o amor demonstrado no cuidado um com o outro, nas orações constantes, no carinho expresso pelo time que nos recebeu...
Saímos desta etapa com a sensação de dever cumprido, de gratidão imensa a Deus por ter sido tão gracioso em operar milagres e maravilhas apesar de nós mesmos, de nos presentear com a sua doce presença que modificou as nossas vidas através da interação com um grupo de pessoas tão simples, mas tão ricas.
Aprendemos muito mais que ensinamos, e seremos gratos pra sempre por esse tempo....
Só tenho dizer a cada um de vocês, querido time, muito obrigada... liderar um time como este, juntamente com Pr. Pedro foi mais que um presente...
Muito obrigada Jinx, Dawn e Cecília por nos receber tão bem e por testificar que Jesus vive através das suas vidas e ministério.
Amo cada um de vocês do mais profundo do meu coração e estarei orando para que a jornada de cada um seja completada aos pés do nosso Deus...
Me despeço com lágrimas nos olhos, com o coração apertado de saudades e com gratidão a Deus, na certeza q Ele estará presente com vcs o tempo todo...
Beijos e abraços bem brasileiros..
Nos vemos em breve!!
Ana 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A última imagem de um grande aprendizado...

Pemba, 21 de julho de 2011.

Essa é a nossa última semana como Time Mocimboa da Praia. Nosso termo e comprometimento como Time trabalhando em Mocimboa chegou ao fim...
Mas o que não chegou ao fim é o sentimento de família que tivemos nesses dois anos. Cada membro do nosso Time, composto por 5 diferentes continentes, teve sua parcela importante como membro dessa família, como missionários em Mocimboa, como irmãos compartilhando o pão, as lágrimas, as alegrias, as saudades, as frustrações, as vitórias...

A nossa união, nosso respeito mútuo, nosso sentimento de solidariedade um pelos outros foi coisa rara a ser compartilhada. Não houve um só momento em que a desunião imperou. Não houve problemas a serem resolvidos e coisas a serem tratadas... Deus realmente foi fiel, bom, misericordioso e amoroso em nos proporcionar tamanha afinidade.

Não teríamos sobrevivido sem as piadas e coração de servo do nosso líder Steve, sem o coração sempre aberto a servir e amar da nossa líder Sharon, sem o talento musical do Mark, sem a sabedoria do Patrick, sem as risadas e conselhos da Mama Aby, sem o senso de organização da Jennifer, sem o perfeccionismo da Margaret, sem a criatividade da Bron, sem o senso crítico e sempre pontual do Tim... e ainda, não teríamos sobrevivido sem os sorrisos e todas as alegrias que o Micah, Krista, Josiah, Katie, Aby e James trouxeram para os nossos dias...

Foi uma honra, um privilégio, uma alegria e um aprendizado constante ter compartilhado minha vida e ministério com o Time Mocimboa da Praia. Hoje tenho família e casas sempre abertas para mim em diferentes continentes, e a minha casa, aonde eu estiver nesse mundo, também será a casa deles...
Amo cada um de vcs e louvo a Deus por ter nos unido como família...
Bjos
Ana

Ps: Essa é a nossa última foto como Time, tirada no dia 21 de julho de 2011.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Paz, alegria e esperança: dando tchau pra Mocímboa

Pemba, 18 de julho de 2011.





Sala vazia, quarto vazio, cozinha vazia... A cada palavra minha e da Jen na casa, soava um eco estranho de tristeza e de felicidade... Nas conversas já não sabíamos como nos referir: estamos deixando a “nossa casa” pra voltar pra “nossa casa”...
O chão estava forrado de cestas com presentes: roupas, toalhas, cortinas, utensílios de cozinha, tudo para oferecer as nossos vizinhos. Sem contar os móveis sendo carregados pela rua...

 
Nossas vizinhas e amigas nos ajudaram a limpar a casa antes de entregarmos a chaves: se ajoelharam e lavaram o nosso chão com panos e vassouras, as crianças se juntaram pra tirar as teias de aranha enroscadas no teto, as meninas limpando as nossas janelas...

As crianças choraram e esconderam os rostinhos em suas capulanas, pois é claro, chorar nessa cultura é quase um pecado. A casa se encheu de visitas e pessoas que foram nossa família por 2 anos... E às 7 da manhã Zaína, Zura, Sifa e Sara estavam no portão, esperando pra carregar minhas malas e darmos o nosso último tchau... Uma emoção sem fim... Minha mala está cheia de presentes, de lembranças e o coração cheio de memórias e histórias q marcaram pra sempre minha vida...



Fechar essa etapa, dar um passo a frente rumo ao futuro que se inicia fora da África, dar abraços, beijos, chorar, rir, lembrar de coisas engraçadas, do que melhorou, do que piorou, relembrar dos primeiros dias na terra dos coqueiros e casas de barro, sentindo na boca o gosto dos últimos dias...

Fazer um balanço do que este tempo significou na minha vida pode ser traduzido em três palavras: paz, alegria e esperança.


Paz em saber que eu deixei tudo o que era conhecido rumo ao desconhecido porque a paz que excede todo o entendimento sempre imperou apesar do medo, da ansiedade, do pânico, da distância e das muitas saudades...
Alegria em se descobrir exatamente no centro da vontade de Deus, de amadurecer e sobreviver sem o aconchego de pais amorosos e protetores, e alegria de se sentir em casa, mesmo longe de casa...

E esperança trazida pela certeza de que “Dele, por ele e para Ele são todas as coisas...”. Não algumas coisas, mas todas as coisas. Não algumas áreas do nosso coração e alma, mas todas as áreas, tudo... E não há melhor descanso do que descansar na esperança que a sua graça nos traz.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crianças esquecidas numa aldeia africana

Espungabera, 26 de junho de 2011.



Eu não sabia o que me esperava, só sabia que era longe... muito longe... Espungabera era conhecido a mim somente pelos relatos da minha amiga missionária Cecília.



A terra foi ficando cada vez mais vermelha a cada quilômetro trilhado. A serra começou a aparecer de forma íngreme até chegarmos ao topo de uma linda montanha. Mas o tempo no conforto desta terra vermelha foi curto. Logo já começamos a nos preparar para passar 5 dias na aldeia de Macumba, totalmente isolada no mato a uma hora e meia de Espungabera.



A mata era fechada e a Land Rover em que estávamos ia abrindo caminho pelas clareiras... eu só conseguia pensar: “Se eu tiver que sair correndo, para onde eu corro?” Não havia para onde correr....



Montamos nossa barraca atrás da Igreja e logo dezenas de crianças começaram a aparecer, com seus olhinhos atentos, curiosos, sedentos, famintos, espertos... Participei com a missionária Didi, Cecília e um jovem moçambicano chamado Manguiza de um treinamento sobre como ensinar crianças na Escola Dominical....



Com pensamentos inocentes e despreparados, me deparei com uma realidade espiritual totalmente escura e sombria. Não sabia que aquela região é centro de muitas reuniões e treinamento de feiticeiros e curandeiros de toda a África...



Um dia, estávamos sentadas em volta da nossa barraca e uma menina chamada Itipo, de apenas 5 anos de idade, ficou possessa de espíritos malignos. Ela estava sentada no chão e sua coluna ia pra frente e pra trás, quase arrastando seu rostinho na terra. Suas mãozinhas ficaram duras e ela não tinha nenhuma expressão em seu olhar. Sua irmã Helena, que estava ao seu lado, fazia carinho em suas costas o tempo todo. Depois de orarmos por ela, ainda demorou muito para que ela conseguisse nos olhar nos olhos, a sorrir... Eu não sabia o que pensar... nem sabia como agir...



Tomar banho no mato, usar o banheiro no mato, apesar de extremamente desconfortante não se comparava ao peso e ao desconforto de conviver tão de perto com pessoas sobrevivendo em meio a uma pobreza generalizada. As crianças estavam muito sujas, cheirando mal, o frio era cortante e elas não tinham nenhuma roupa apropriada ou calçado pra se protegerem do clima gelado. Elas se amontoavam na fogueira à noite e logo ao amanhecer...



O grau de pobreza que encontrei em Macumba foi terrível. A pobreza espiritual, a lacuna de amor, esperança, paz, a carência em todas as expressões daquelas mães, crianças, pais e famílias fizeram com que o nosso coração se cansasse de tamanha disparidade... Assim, além de treinarmos pessoas para o ensino bíblico infantil, contamos histórias bíblicas para as crianças, cortamos suas unhas, visitamos, fomos buscar água, brincamos, pintamos seus rostinhos e é claro, também fomos pintadas... E o mais impressionante, conheci a Essináti, uma menina de 9 anos que lê perfeitamente o português e que nos pediu uma Bíblia pra ler... uma emoção sem medida...  



Mas Glórias a Deus pelo seu filho Jesus, pelo seu amor e misericórdia por nós e pelo povo de Macumba. Sua luz brilhou naquele lugar e continuará a brilhar através daquelas crianças... Deixamos aquela aldeia felizes pelo trabalho realizado, pelo amor demonstrado e pelo aprendizado com um povo sofrido, mas que tem aprendido a conhecer  e a temer a Deus...

 

Passar esses dias longe da minha terra em Mocimboa da Praia tem marcado a minha vida de forma impressionante... tenho conhecido um outro Moçambique... e a idéia da despedida tem ficado cada dia mais dolorosa...







sábado, 21 de maio de 2011

Educação


Mocimboa da Praia, 21 de maio de 2011.


Os dias do ano de 2011 têm sido marcados pra mim com o tema EDUCAÇÃO...

Tenho refletido e me surpreendido como este tema, aliado ao evangelho de paz e libertação de Jesus, pode surtir efeitos maravilhosos na vida das pessoas... Tenho desafiado conceitos errôneos de que algumas pessoas não podem aprender. Sim, todos podem aprender, quando são ensinados com respeito, préstimo e amor!!!

Desenvolvi com a ajuda de alguns colegas de Time um manual chamado “Vivendo uma Vida Melhor”, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das mulheres moçambicanas, através da informação de temas como a prevenção à violência, saúde, nutrição, educação de filhos, educação escolar... Muitas reuniões e seminários têm sido desenvolvidos usando este material...
Já capacitei mulheres da comunidade, ativistas de um programa de prevenção HIV/SIDA do Hospital, jovens do programa “Desafio Jovens” de Moçambique, e é claro, as mulheres das igrejas de Mocimboa...

Por mais que eu tente expressar a minha alegria e contentamento, e mais que isso, agradecimento, eu não conseguiria.... Sou grata a Deus por usar meus dons, personalidade, paixão e conhecimentos adquiridos no Brasil aqui na África...

Em alguns encontros me vi rodeada de jovens e mulheres discutindo conceitos de gênero, violência, educação e através desses conceitos, descobrindo que é possível sonhar e desejar com uma vida melhor e de melhor qualidade.

Já em outros encontros como o de hoje, onde ensinei mulheres com um menor nível educacional e de idades mais avançadas, a conversa foi outra.... Me dei conta de como é complexo levantar debates sobre casamento, fidelidade, violências diversas, quando estes estão arraigados a costumes e tradições culturais tão diversos da minha.

Fiquei sem chão quando uma das mulheres mais velhas sentadas no meu quintal, disse que eu estava ensinando tudo isso pq era estrangeira e pq não era casada com um homem moçambicano. Minha resposta foi que eu não sabia mesmo, mas que toda mulher deve aprender a conhecer e reconhecer o seu verdadeiro valor seja em que sociedade for.

Que sim, casamentos e relacionamentos inseridos em desrespeito e violências, podem mudar quando uma das partes começa a refletir sobre o problema e buscar soluções para eles. Que os homens continuarão tendo mil e uma namoradas fora do casamento enquanto as mulheres continuarem a aceitar ninharias por favores sexuais...

Depois do encontro foi impossível não conter as lágrimas por ver que essas mulheres que eu tanto aprendi a amar, estão com suas mentes e corações imersas em tristeza, traições, ciúmes, invejas, violências de todo o tipo, e o que é pior, numa inércia indescritível. Só pude orar e pedir a Deus que as sementes de esperança plantadas nessa manhã, possam um dia frutificar.

Assim, Deus tem me surpreendido a cada dia, seja nos dias alegres, seja nos tristes, pois em todo o momento Ele tem se revelado um Deus de amor no sentido de me usar e me capacitar para fazer o que gosto, o que amo e o que sinto paixão, e converter tudo isso pra louvor e glória do seu nome...


Tão diferentes, e tão iguais nas angústias, sonhos, anseios...














terça-feira, 10 de maio de 2011

Matacando...


Mocimboa da Praia, 10 de maio de 2011.


Ter a casa própria é o sonho de muitas pessoas por esse mundo afora... E é claro, não poderia ser diferente na Vila de Mocimboa da Praia.

Assim hoje vou apresentar a vocês uma típica casa do norte de Moçambique.

A estrutura é feita de bambu e estes são amarrados com filetes de borracha de pneus. Para quem tem um poder aquisitivo melhor, pedras são introduzidas nas estruturas e seladas com matópe (barro). Quem não tem dinheiro, preenche toda a estrutura somente com o barro. Da mesma maneira a casa pode ser coberta com makuti (um tipo de palha de coqueiro) ou com chapas de zinco. Depois a casa é rebocada com mais barro e depois com cimento, é claro, se houver dinheiro para o cimento. Minha casa é feita da mesma estrutura...


Hoje minhas mãos estão secas de mexer no barro, de fazer bolinhas e mais bolinhas de barro pra preencher a casa da minha amiga...

Minhas mãos estão secas e tingidas de barro vermelho, pois eu estava a “matacar”(que é o verbo usado para preencher as estruturas de bambu na construção da casa com barro)...

Já ajudei a matacar duas casas e não consigo descrever a emoção de me ver ajudando minhas amigas a realizarem seu sonho de possuírem seu chão, seu teto, suas paredes de barro, e que custam muito para serem adquiridas...

São experiências como estas e inserção em afazeres como estes, que o missionário vai construindo não só casas, mas relacionamentos, confiança, préstimo, amizade, amor e por que não laços familiares...

Fazer parte na construção destas casas significou muito mais para mim do que para elas...

A minha oração é que elas sintam o amor de Jesus através de todas as minhas “matacadas”...



quinta-feira, 24 de março de 2011

Compaixão

Mocimboa da Praia, 22 de março de 2011.
 
 
Ela veio até minha casa... veio me pedir que guardasse um segredo... veio me contar que estava com AIDS... É por isso que vcs não saberão seu nome...
Mas saberão o que já é comum a mim: tenho mais uma amiga que tem essa doença terrível... Ela disse que não queria tratamento e que se ela morresse, era vontade de Deus.
Três meses se passaram e ela me escreveu uma linda carta, me pedindo enfim, ajuda para fazer o bendito tratamento...
“Você mana por favor ajuda... Mana, hei de morrer agora...”
E hoje, um mês depois de sua carta, passei o dia todo no hospital na companhia de uma amiga doente, desfalecida, com os olhos vidrados de dor, com a pele queimando em febre, cortada com gilete, pois foi no curandeiro... Assim que o enfermeiro a perguntou se os cortes eram provenientes do curandeiro e ela olhou pra mim e disse: “Mana, não zangar comigo, eu estava a tentar...”
Um corpo suado, mal amado, que leva as marcas de uma vida sem Jesus...
Hoje minhas lágrimas começaram a rolar antes mesmo de chegar ao hospital... lágrimas pela exaustão emocional a que sou entregue todos os dias.... Exaustão física pelas andanças e tentativas, muitas vezes frustradas, de ajudar aqueles que não tem voz...
Essa exaustão é difícil de ser compartilhada, é difícil de ser compreendida, é difícil de ser acreditada...
É por isso que muitos missionários estão a sofrer pelos campos nesse mundo de nosso Deus... pois só o sente... só o sabe... quem já o viveu...
Estou hoje expondo a minha exaustão, a minha tristeza, a minha angustia e descontentamento com uma vida injusta, com um mundo injusto...
Sentada na minha cama, sentindo o perfume do meu sabonete Dove (que é um alento para a minha alma e meu corpo), só consigo pensar que esse mundo não é justo!!!
Minha amiga está lá dividindo uma mísera cama de hospital com outra mulher por falta de leitos, num lugar sujo, calorento, fedorento... e eu aqui, sem ter mais o que fazer... a não ser orar e pedir a vocês que me ajudem em oração...

Orem pela cura da minha amiga...
        Orem por sabedoria para que eu converse com tantas outras amigas q ainda se recusam em se tratar...
         Orem para que elas sintam o amor de Jesus através do meu toque e carinho...
Só em Deus há justiça, pois ele é justo...
         Só em Deus há renovo, pois ele é repleto de esperança e misericórdia....
          
         Só em Jesus há salvação...



"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; 
porque quem ama aos outros cumpriu a lei".  Rm 13.8

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Atravessando o oceano

Quênia, 10 de fevereiro de 2011.

 
O amor se torna mais real quando nossas palavras atingem mais do que o plano subjetivo do pensar e falar, e alcança a forma física do agir e fazer...  
Foi assim que senti o verdadeiro amor de Jesus por mim e pela sua obra, através de ações concretas que demandaram tempo, energia, dinheiro, deslocamentos, horas e horas pensando e repensando na qualidade de livros, enciclopédias, livretos, revistas e dicionários a serem enviados para um continente tão carente como o Africano.
É o sentir desse amor de Deus por nós através da vida de outras pessoas (que as vezes nem conhecemos) que faz o evangelho de Cristo se tornar real e significativo. Pois sua vinda, morte e ressurreição veio concretizar a vida coletiva, o pensar no outro mais do que em nós mesmos, o doar, o agradecer, o compartilhar...
E estou aqui, humildemente reconhecendo esse grande amor que vai além de fronteiras, distâncias, línguas, tribos e nações. Que vai além de placas de igrejas, instituições, empresas e órgãos governamentais...
O amor que a população de Mocimboa sentiu, que o Time de missionários em Mocimboa sentiu através do envio de malas e malas repletas de livros e conhecimento a ser repassado... foi real, foi palpável, foi significativo, foi genuíno, foi cristão...
Nomear pessoas, instituições e igrejas não seria justo, pois muitas doações foram anônimas e nunca saberei essas pessoas...
Então meu agradecimento vai para todos aqueles que de forma direta ou indireta contribuíram para que nossa Biblioteca Karibuni fosse preenchida não só com novos conhecimentos e saberes, mas também com um amor e carinho que veio além mar...
Obrigada, obrigada, obrigada...
Gostaria de abraçar um a um... e peço a Deus que isso ainda me seja possível...
Que Deus os abençoe e continue a tocar os seus corações em abençoar outras tantas Mocimboas por esse mundo a fora...
Com amor, orações, carinho e muito agradecimento.
Ana

 Minha mãe e minha amiga Renata: nossas ajudantes no Brasil






segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Doação de livros

Mocimboa da Praia, 6 de dezembro de 2010.

Olá queridos,
Tô vindo aqui hoje pra fazer um pedido especial a vocês...
Inauguramos no dia 30 de outubro nossa Biblioteca Karibuni, com o objetivo de abençoar e elevar o nível intelectual e educacional de nossa população.
Foi um dia de muita festa, onde o presidente do município despejou elogios e agradecimentos pela iniciativa.
Porém, nossas prateleiras estão praticamente vazias... precisamos urgente de doações de livros, livretos, revistas, dicionários, etc.
Por favor, olhe para as prateleiras de sua casa e despeje em nossa Biblioteca aquilo que vc não usa e não lê mais... pois aqui tem muitos homens, mulheres, crianças, jovens e idosos sedentos por novos saberes... principalmente de livros em português, que é a língua nacional de Moçambique.

Em Marília tenho duas pessoas especiais me ajudando...
A minha amiga e agente de comunicações... rss... Renata Devidé está recebendo doações pelo seu email redevide@hotmail.com e a Igreja Ágape também é posto de doações, no telefone: (14) 3413-9510.
Minha mãe, minha maior incentivadora, também está recebendo doações pelo email: rutimess@terra.com.br  e pelo telefone (14) 3433-9428.
A 1 Igreja Presbiteriana Independente de Marília também é posto de doações pelo telefone: (14) 3433.2856

Precisamos de:
·         Livros infantis
·         Educacionais
·         Literatura em geral
·         Economia e finanças
·         Agricultura
·         Saúde
·         Nutrição
·         Educação de filhos
·         Casamento
·         Dicionários (português, inglês, francês, espanhol)
·         Gibis
·         Revistas
·         Livros cristãos em geral
·         Livros em inglês.
Mas de verdade pessoal, tudo o que vcs tiverem será bem vindo...
Mas precisamos disso com URGÊNCIA, pois os livros serão enviados para mim até o dia 15 de dezembro e depois em outra remessa no dia 04 de janeiro.

Espero que muitos se mobilizem por esta causa...
Mais uma vez obrigada,
Amo vcs,
Ana Elisa

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pãezinhos e chá com gosto de parabéns

Mocimboa da Praia, 09 de outubro de 2010.

Uns dias atrás comecei a pensar sobre as crianças que moram na minha rua... e a idéia q estarei partindo daqui a 9 meses me gelou o coração... Os verei de novo? Eles terão outra oportunidade de ouvir o evangelho?
Assim, na quarta feira de manhã fiz pãezinhos (uma receita americana – biscuits), preparei chá, estendi a esteira no meu quintal e servi café da manhã juntos para eles (mata-bicho, para os moçambicanos).
Quando Omare (mais conhecido como “Pai”) viu o prato cheio de pãezinhos e o chá começou a cantar: “Happy Bithday to you, happy birthday to you...”
Ao mesmo tempo que achei engraçadinho, me cortou o coração perceber que tudo aquilo era uma festa para aquelas crianças... que na maioria dos dias não tomam mata bicho e vão ter sua primeira refeição depois do meio dia...
Decidi que nas manhãs de quarta-feira vou fazer biscuits, chá e contar histórias bíblicas, além de ensinar português a eles, que sofrem demais quando chegam a escola aos 7 anos (quando vão é claro), pois só falam a língua tribal...
A primeira história que contei foi a de Noé (contei em kimwani, e eles iam me ajudando com as palavras q eu não sabia...)
Foi um tempo onde relaxei, aprendi, me diverti, me deliciei com a presença deles e me senti realizada por estar aqui...

Que as palavras da Verdade encontrem terreno fértil no coração desses pequenos...

Ps: Foi impossível não sentir a falta do Assanito nesse meio.... mas sua família estava representada: Saidi é seu tio... (Ágata teve Assanito na mesma época q sua mãe teve Saidi).

da direita para esquerda: Mado, Fatinha, Ntoto, Abu, Pai e Saidi


Fatinha tomando seu mata-bicho...


Ajudando Mado a tomar chá... e Saidi se deliciando com o chá...


Pai - pegando sua xícara e Abi comendo pão...





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

No silêncio...tu estas

Mocimboa da Praia, 24 de setembro de 2010.

 
Depois da morte do Assanito... entrei numa onda de silenciamentos.... de um cansaço mental, físico e emocional enorme...
 
Foi por isso que sumi do meu blog...

Um desgaste gerado pela dependência, pela atenção requisitada o tempo todo... expectativas que são difíceis de serem respondidas à altura pelo simples fato de estar em contato com o valores q não os meus...
Aí vem a irritação, vem o choro, vem o desânimo, vem a tristeza e um turbilhões de perguntas sem respostas...
Mas em todo o tempo Deus foi Aquele a me confortar, a revigorar meu ânimo, a guardar minha mente e coração da culpa, de renovar as forças para não desistir, mas sim seguir em frente... olhando para o alvo... que é Jesus... só Jesus...
 
Lembrando sempre das palavras de Paulo a Timóteo:
 
“Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério”. (II Timóteo 4:5)

 
E assim estou de volta por aqui... amparada no meu melhor amigo e companheiro de todas as horas...
Até daqui uns dias...

Bjos a todos...
Ana

domingo, 15 de agosto de 2010

1a perda

Mocimboa da Praia, 15 de agosto de 2010.       
 
 
Assanito morreu.
Morreu no dia 14 de agosto às 22 horas. Morreu dois dias antes de completar 3 anos.
Assani, como todos os chamam, foi a criança que mais me apeguei em Mocimboa.
Quando o conheci ele não andava e não falava. Foi este ano, depois de um tratamento de tuberculose que Assni começou a caminhar com segurança e a falar... e ouvi o primeiro “Ana!!” da sua boca em fevereiro de 2010...
Assanito está no céu. Está presenciando uma paz, alegria e contentamento que nunca teve aqui na terra.
Ele morreu com uma pulseira de pano feito por um curandeiro, pois enquanto eu estava no Brasil, sua mãe, Ágata procurou o curandeiro mais uma vez para tentar curar seu filho... que tinha AIDS, tuberculose, asma e sabe mais Deus o que...
A última vez q toquei em Assanito foi na sexta-feira de manhã. Ele estava dormindo de barriga pra cima, respirando com dificuldade, com catarro escorrendo de sua boca e do seu nariz... Quando sentei na cama de corda em que ele estava dormindo no quintal, encontrei sua carinha com muitos mosquitos, e quando fui limpar seu nariz ele chorou e voltou a dormir, respirando com dificuldade e fazia um barulho horrível.
A vó de Assani, Verônica, foi consolada quando estava correndo quase sem roupa pela rua de terra sem energia nenhuma, num desespero que marca uma cultura que não tem a esperança de um dia viver eternamente com Jesus no céu. Ela veio em minha porta gritando: “Ana, Ana, Ana, Assani morreu Ana!!! Assani morreu!!” Sai de pijama, enrolada numa capulana e chorei amargamente abraçada com minhas amigas....
Ágata mal pode chorar a morte de seu filho. Na cultura mwani vc não pode chorar “muito” pois isto atrapalha a ida da pessoa morta até o seu destino final.Se  houver muito choro, será um caminho cheio de dificuldades e pesares. É pecado chorar pela morte de alguém.
Sentei durante a madrugada num quarto cheio de mulheres, com Ágata deitada no meu colo, desconsolada, perdida e quando não podia segurar, gritava: “Assani, Assani meu filho, Assani minha família, meu filho, meu filho...” E já vinha alguma mulher dizendo que não era pra ela chorar, q ela sabia o que estava trazendo para o seu filho. Mas ao redor, vc podia ver as lágrimas rolando do rosto de cada uma, num silêncio mortal, numa falta de esperança sem fim...
Assanito ficou no quarto ao lado a noite toda sozinho coberto com uma capulana, deitado numa cama de corda. Embaixo desta cama foi feito um buraco no chão, para quando o corpo fosse lavado, a água escorresse nesse buraco e ele fosse tampado depois. Como Assani era um menino, foram homens a lavar seu corpo com sabonete, enrolar num pano branco para ser enterrado.
Foi enterrado as 9:30 da manhã de hoje no cemitério muçulmano de Mocimboa. Só os homens podem acompanhar o enterro. As mulheres não tem esse direito. Ficamos todas sentadas no quintal só observando...
Depois q Assanito morreu, Ágata não pode ficar mais com ele, não pode mais olhar pra ele e nem ficar no mesmo quarto que ele... nem se quer pode derramar todas as lágrimas que estão inundando a sua vida nesse momento...
Amanhã teremos uma cerimônia chamada “Matanga”, que acontece de um a três dias depois da morte de alguém. A família oferece comida aos convidados e depois desta cerimônia está confirmado que a pessoa morta não voltará mais.
Eu estou aqui... chorando minha primeira perda em Mocimboa... chorando a perda de Assanito... chorando por Ágata, Verônica e todo o povo mwani inserido nessa escuridão de alma, medo do futuro, falta de esperança..
Estou pensando qual será minha próxima perda... preparando meu coração para me conformar com a AIDS, com a falta de recursos, com a falta de dinheiro, mas não me conformando com a falta de Jesus na vida de meus amigos e amigas... continuarei aqui, clamando por sabedoria e oportunidades para falar do amor de um Deus que traz conforto, paz de espírito, salvação da nossa vida, promessa de uma eternidade toda a seu lado...
 
Adeus Assani, titia Ana amou ter conhecido você... fiz tudo o que podia pra te ajudar, fiz tudo o que estava ao meu alcance, e mesmo chorando estou feliz que hoje vc não está mais sofrendo, mas está brincando no céu, respirando perfeitamente, com seu rostinho limpo e um corpo sem imperfeições... estou feliz q vc conheceu Jesus e espero um dia te encontrar de novo... Bjos... Titia Ana 

 Essa foi a última foto que tirei de Assani, dia 24.04.2010