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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Minha única razão

Marília, 21 de setembro de 2011.
Colocar as informações de dois anos vividos em África num compêndio de ideias a serem transmitidas para um público que a maioria das vezes eu não possuo intimidade de fato, tem sido um desafio...
Estampar as fotos das minhas amigas, de famílias que considero como minhas, contar suas histórias, rever rostos que são tão familiares, sentir cheiros, gostos, reviver um estado de espírito, humor, lembrar da textura do chão, dos lenços, das crianças me chamando pela rua... Dos desafios de ministério, da luta espiritual sempre presente, dos objetivos, das vontades, das saudades, da expectativa de um retorno, do medo do adeus...
Organizar minhas viagens por entre as igrejas que são minhas parceiras e outras que tem me convidado, tem sido um exercício de fé interessante...
De que eu não paute minha vida num ministério vivido, numa decisão tomada há dois anos atrás, mas sim, pautada na decisão diária de amá-Lo em primeiro lugar e fazer a Sua vontade, descansando na paz que excede e na alegria sempre renovada em Sua presença...
Reviver as fotos, fatos e tudo o que eles englobam, fez com que eu ligasse pra Moçambique tamanha a falta e saudade...
Liguei para minhas amigas: Ágata, Zaína e Zura...  Ficamos eufóricas, nos abastecemos com as últimas novidades, com carinhos, com palavras de saudade, de cumprimentos a todos, e é claro, falei em kimwani, pois elas me alertaram q eu não posso me esquecer a língua!
Viver o aqui depois do vivido lá, tem sido extremamente interessante...  e que as palavras de Paulo sempre ecoem em meu espírito:
“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus.”   2 Coríntios 4:5
Que a proclamação do amor de Jesus continue sendo a única razão na minha caminhada cristã e missionária...

domingo, 5 de junho de 2011

Um dia no mar

Mocimboa da Praia, 03 de junho de 2011.
 
 
A pesca é parte da cultura mwani, pois a própria palavra mwani quer dizer “mar” ou aquele que vive perto do mar. Assim, ser mwani é ter o mar como fonte de renda, sustento financeiro, alimentício, de lazer... E na tentativa de experimentar e fazer parte de diversos fatores dessa cultura, não podia deixar de ir à pesca.
 
Eram umas 8:30 da manhã do dia 17 de maio quando nos armamos dos utensílios básicos e fomos em direção ao mar: uma bacia, uma panela sem tampa, um cesto de vime e a rede de pesca (feita de “rede de mosquiteiro”).
 
A primeira etapa foi pescar uma espécie de peixes pequenos e camarões minúsculos, que mais pareciam uma massa de peixe para serem usados como isca. Elas foram coletando essa “massa de peixe” e colocando em suas panelas (sustentadas na suas cabeças).

quinta-feira, 24 de março de 2011

Compaixão

Mocimboa da Praia, 22 de março de 2011.
 
 
Ela veio até minha casa... veio me pedir que guardasse um segredo... veio me contar que estava com AIDS... É por isso que vcs não saberão seu nome...
Mas saberão o que já é comum a mim: tenho mais uma amiga que tem essa doença terrível... Ela disse que não queria tratamento e que se ela morresse, era vontade de Deus.
Três meses se passaram e ela me escreveu uma linda carta, me pedindo enfim, ajuda para fazer o bendito tratamento...
“Você mana por favor ajuda... Mana, hei de morrer agora...”
E hoje, um mês depois de sua carta, passei o dia todo no hospital na companhia de uma amiga doente, desfalecida, com os olhos vidrados de dor, com a pele queimando em febre, cortada com gilete, pois foi no curandeiro... Assim que o enfermeiro a perguntou se os cortes eram provenientes do curandeiro e ela olhou pra mim e disse: “Mana, não zangar comigo, eu estava a tentar...”
Um corpo suado, mal amado, que leva as marcas de uma vida sem Jesus...
Hoje minhas lágrimas começaram a rolar antes mesmo de chegar ao hospital... lágrimas pela exaustão emocional a que sou entregue todos os dias.... Exaustão física pelas andanças e tentativas, muitas vezes frustradas, de ajudar aqueles que não tem voz...
Essa exaustão é difícil de ser compartilhada, é difícil de ser compreendida, é difícil de ser acreditada...
É por isso que muitos missionários estão a sofrer pelos campos nesse mundo de nosso Deus... pois só o sente... só o sabe... quem já o viveu...
Estou hoje expondo a minha exaustão, a minha tristeza, a minha angustia e descontentamento com uma vida injusta, com um mundo injusto...
Sentada na minha cama, sentindo o perfume do meu sabonete Dove (que é um alento para a minha alma e meu corpo), só consigo pensar que esse mundo não é justo!!!
Minha amiga está lá dividindo uma mísera cama de hospital com outra mulher por falta de leitos, num lugar sujo, calorento, fedorento... e eu aqui, sem ter mais o que fazer... a não ser orar e pedir a vocês que me ajudem em oração...

Orem pela cura da minha amiga...
        Orem por sabedoria para que eu converse com tantas outras amigas q ainda se recusam em se tratar...
         Orem para que elas sintam o amor de Jesus através do meu toque e carinho...
Só em Deus há justiça, pois ele é justo...
         Só em Deus há renovo, pois ele é repleto de esperança e misericórdia....
          
         Só em Jesus há salvação...



"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; 
porque quem ama aos outros cumpriu a lei".  Rm 13.8

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Atravessando o oceano

Quênia, 10 de fevereiro de 2011.

 
O amor se torna mais real quando nossas palavras atingem mais do que o plano subjetivo do pensar e falar, e alcança a forma física do agir e fazer...  
Foi assim que senti o verdadeiro amor de Jesus por mim e pela sua obra, através de ações concretas que demandaram tempo, energia, dinheiro, deslocamentos, horas e horas pensando e repensando na qualidade de livros, enciclopédias, livretos, revistas e dicionários a serem enviados para um continente tão carente como o Africano.
É o sentir desse amor de Deus por nós através da vida de outras pessoas (que as vezes nem conhecemos) que faz o evangelho de Cristo se tornar real e significativo. Pois sua vinda, morte e ressurreição veio concretizar a vida coletiva, o pensar no outro mais do que em nós mesmos, o doar, o agradecer, o compartilhar...
E estou aqui, humildemente reconhecendo esse grande amor que vai além de fronteiras, distâncias, línguas, tribos e nações. Que vai além de placas de igrejas, instituições, empresas e órgãos governamentais...
O amor que a população de Mocimboa sentiu, que o Time de missionários em Mocimboa sentiu através do envio de malas e malas repletas de livros e conhecimento a ser repassado... foi real, foi palpável, foi significativo, foi genuíno, foi cristão...
Nomear pessoas, instituições e igrejas não seria justo, pois muitas doações foram anônimas e nunca saberei essas pessoas...
Então meu agradecimento vai para todos aqueles que de forma direta ou indireta contribuíram para que nossa Biblioteca Karibuni fosse preenchida não só com novos conhecimentos e saberes, mas também com um amor e carinho que veio além mar...
Obrigada, obrigada, obrigada...
Gostaria de abraçar um a um... e peço a Deus que isso ainda me seja possível...
Que Deus os abençoe e continue a tocar os seus corações em abençoar outras tantas Mocimboas por esse mundo a fora...
Com amor, orações, carinho e muito agradecimento.
Ana

 Minha mãe e minha amiga Renata: nossas ajudantes no Brasil






terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma visita especial

Pemba, 24 de janeiro de 2011.

Despedidas são sempre tristes quando não se quer separar, quando não se quer despedir, quando se quer continuar com a presença da pessoa...
Me despedir do Rafa foi um processo de lágrimas q rolaram pouco a pouco... um processo de aceitação q iriam com ele somente algumas bagagens minhas, mas não minha presença...
Quem estava voltando para o Brasil era ele e não eu...
         Nossos dias em África foram recheados de sorrisos, de confissões, de gírias e palavreado com um português brasileiro do bom...
          Foi preenchido pela companhia, pela convivência marcada por laços de sangue, por divergência de idéias, por gargalhadas altas e sinceras, por olhares entendidos, por discussões e bravezas comuns àqueles q se chamam irmãos...
          Minha casa se encheu da presença alta dele, do som do tocar de um violão emprestado... onde músicas antigas foram desenterradas, lembranças dos anos de adolescência e infância trazidas à tona: “Satisfação é ter a Cristo...” , “A vitória é daquele q o adorar...” , “Em todo o tempo eu louvarei ao Senhor...” , “Aquele que sonda o meu interior...” ,  “Solta o cabo da nau...”  , “ Na estrada em que eu andei, eu pensei daria certo... pá,pá, pá pá...” , “Há momentos que na vida...”  , “É hora de não olhar pra trás...” , “Entoai saltérios, entoai ó harpas...”,  “Logo de manhã...” , “A vida minha vida, era muito doida...”, “Conheci um grande amigo, ele é filho de Deus Pai...” e muitas outras...
           Esse tempo de cantorias juntos foi o meu favorito... como também o dividir a mesa, ouvir ele me chamando de Tata, andanças de moto, a pé, de barco, de caminhão, no sol, na chuva...  ter notícias políticas e econômicas do meu Brasil brasileiro, notícias de como a Manuela tá se tornando uma menininha adorável e expressiva... e tudo isso sob a perspectiva  dos seus olhos e percepções... ahhh... não teve preço!!!
           Poder compartilhar minha vida, meu dia a dia, meu ministério, minhas alegrias e decepções com alguém que vai entender meu falatório sobre Mocimboa... dividir quarto de hotéis limpos, sujos, assistir filmes, dividir a cia ao ler livros em silêncio mútuo, de bom dias e boas noites...
           Aqui só fica um vácuo... um  saudade doída e apertada... um nó na garganta que não passa... mas uma alegria e satisfação pelo vivido e pelo compartilhado...
            Depois dessa viagem minha relação com meu irmão nunca mais será a mesma... e minha oração é para que continuemos a trilhar nossos caminhos na presença de Jesus, dividindo laços de sangue e carinho, respeitando nossas individualidades, decisões e idéias...
           Amo vc Rafa e obrigada por ter vindo!!!

            Bjos da Tata



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Doação de livros

Mocimboa da Praia, 6 de dezembro de 2010.

Olá queridos,
Tô vindo aqui hoje pra fazer um pedido especial a vocês...
Inauguramos no dia 30 de outubro nossa Biblioteca Karibuni, com o objetivo de abençoar e elevar o nível intelectual e educacional de nossa população.
Foi um dia de muita festa, onde o presidente do município despejou elogios e agradecimentos pela iniciativa.
Porém, nossas prateleiras estão praticamente vazias... precisamos urgente de doações de livros, livretos, revistas, dicionários, etc.
Por favor, olhe para as prateleiras de sua casa e despeje em nossa Biblioteca aquilo que vc não usa e não lê mais... pois aqui tem muitos homens, mulheres, crianças, jovens e idosos sedentos por novos saberes... principalmente de livros em português, que é a língua nacional de Moçambique.

Em Marília tenho duas pessoas especiais me ajudando...
A minha amiga e agente de comunicações... rss... Renata Devidé está recebendo doações pelo seu email redevide@hotmail.com e a Igreja Ágape também é posto de doações, no telefone: (14) 3413-9510.
Minha mãe, minha maior incentivadora, também está recebendo doações pelo email: rutimess@terra.com.br  e pelo telefone (14) 3433-9428.
A 1 Igreja Presbiteriana Independente de Marília também é posto de doações pelo telefone: (14) 3433.2856

Precisamos de:
·         Livros infantis
·         Educacionais
·         Literatura em geral
·         Economia e finanças
·         Agricultura
·         Saúde
·         Nutrição
·         Educação de filhos
·         Casamento
·         Dicionários (português, inglês, francês, espanhol)
·         Gibis
·         Revistas
·         Livros cristãos em geral
·         Livros em inglês.
Mas de verdade pessoal, tudo o que vcs tiverem será bem vindo...
Mas precisamos disso com URGÊNCIA, pois os livros serão enviados para mim até o dia 15 de dezembro e depois em outra remessa no dia 04 de janeiro.

Espero que muitos se mobilizem por esta causa...
Mais uma vez obrigada,
Amo vcs,
Ana Elisa

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Vídeo da Ana

Oi pessoal,

Este vídeo foi feito pra divulgar o trabalho da Ana la em Mocímboa da Praia.




Quem puder divulgue,

Renata

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pãezinhos e chá com gosto de parabéns

Mocimboa da Praia, 09 de outubro de 2010.

Uns dias atrás comecei a pensar sobre as crianças que moram na minha rua... e a idéia q estarei partindo daqui a 9 meses me gelou o coração... Os verei de novo? Eles terão outra oportunidade de ouvir o evangelho?
Assim, na quarta feira de manhã fiz pãezinhos (uma receita americana – biscuits), preparei chá, estendi a esteira no meu quintal e servi café da manhã juntos para eles (mata-bicho, para os moçambicanos).
Quando Omare (mais conhecido como “Pai”) viu o prato cheio de pãezinhos e o chá começou a cantar: “Happy Bithday to you, happy birthday to you...”
Ao mesmo tempo que achei engraçadinho, me cortou o coração perceber que tudo aquilo era uma festa para aquelas crianças... que na maioria dos dias não tomam mata bicho e vão ter sua primeira refeição depois do meio dia...
Decidi que nas manhãs de quarta-feira vou fazer biscuits, chá e contar histórias bíblicas, além de ensinar português a eles, que sofrem demais quando chegam a escola aos 7 anos (quando vão é claro), pois só falam a língua tribal...
A primeira história que contei foi a de Noé (contei em kimwani, e eles iam me ajudando com as palavras q eu não sabia...)
Foi um tempo onde relaxei, aprendi, me diverti, me deliciei com a presença deles e me senti realizada por estar aqui...

Que as palavras da Verdade encontrem terreno fértil no coração desses pequenos...

Ps: Foi impossível não sentir a falta do Assanito nesse meio.... mas sua família estava representada: Saidi é seu tio... (Ágata teve Assanito na mesma época q sua mãe teve Saidi).

da direita para esquerda: Mado, Fatinha, Ntoto, Abu, Pai e Saidi


Fatinha tomando seu mata-bicho...


Ajudando Mado a tomar chá... e Saidi se deliciando com o chá...


Pai - pegando sua xícara e Abi comendo pão...





domingo, 15 de agosto de 2010

1a perda

Mocimboa da Praia, 15 de agosto de 2010.       
 
 
Assanito morreu.
Morreu no dia 14 de agosto às 22 horas. Morreu dois dias antes de completar 3 anos.
Assani, como todos os chamam, foi a criança que mais me apeguei em Mocimboa.
Quando o conheci ele não andava e não falava. Foi este ano, depois de um tratamento de tuberculose que Assni começou a caminhar com segurança e a falar... e ouvi o primeiro “Ana!!” da sua boca em fevereiro de 2010...
Assanito está no céu. Está presenciando uma paz, alegria e contentamento que nunca teve aqui na terra.
Ele morreu com uma pulseira de pano feito por um curandeiro, pois enquanto eu estava no Brasil, sua mãe, Ágata procurou o curandeiro mais uma vez para tentar curar seu filho... que tinha AIDS, tuberculose, asma e sabe mais Deus o que...
A última vez q toquei em Assanito foi na sexta-feira de manhã. Ele estava dormindo de barriga pra cima, respirando com dificuldade, com catarro escorrendo de sua boca e do seu nariz... Quando sentei na cama de corda em que ele estava dormindo no quintal, encontrei sua carinha com muitos mosquitos, e quando fui limpar seu nariz ele chorou e voltou a dormir, respirando com dificuldade e fazia um barulho horrível.
A vó de Assani, Verônica, foi consolada quando estava correndo quase sem roupa pela rua de terra sem energia nenhuma, num desespero que marca uma cultura que não tem a esperança de um dia viver eternamente com Jesus no céu. Ela veio em minha porta gritando: “Ana, Ana, Ana, Assani morreu Ana!!! Assani morreu!!” Sai de pijama, enrolada numa capulana e chorei amargamente abraçada com minhas amigas....
Ágata mal pode chorar a morte de seu filho. Na cultura mwani vc não pode chorar “muito” pois isto atrapalha a ida da pessoa morta até o seu destino final.Se  houver muito choro, será um caminho cheio de dificuldades e pesares. É pecado chorar pela morte de alguém.
Sentei durante a madrugada num quarto cheio de mulheres, com Ágata deitada no meu colo, desconsolada, perdida e quando não podia segurar, gritava: “Assani, Assani meu filho, Assani minha família, meu filho, meu filho...” E já vinha alguma mulher dizendo que não era pra ela chorar, q ela sabia o que estava trazendo para o seu filho. Mas ao redor, vc podia ver as lágrimas rolando do rosto de cada uma, num silêncio mortal, numa falta de esperança sem fim...
Assanito ficou no quarto ao lado a noite toda sozinho coberto com uma capulana, deitado numa cama de corda. Embaixo desta cama foi feito um buraco no chão, para quando o corpo fosse lavado, a água escorresse nesse buraco e ele fosse tampado depois. Como Assani era um menino, foram homens a lavar seu corpo com sabonete, enrolar num pano branco para ser enterrado.
Foi enterrado as 9:30 da manhã de hoje no cemitério muçulmano de Mocimboa. Só os homens podem acompanhar o enterro. As mulheres não tem esse direito. Ficamos todas sentadas no quintal só observando...
Depois q Assanito morreu, Ágata não pode ficar mais com ele, não pode mais olhar pra ele e nem ficar no mesmo quarto que ele... nem se quer pode derramar todas as lágrimas que estão inundando a sua vida nesse momento...
Amanhã teremos uma cerimônia chamada “Matanga”, que acontece de um a três dias depois da morte de alguém. A família oferece comida aos convidados e depois desta cerimônia está confirmado que a pessoa morta não voltará mais.
Eu estou aqui... chorando minha primeira perda em Mocimboa... chorando a perda de Assanito... chorando por Ágata, Verônica e todo o povo mwani inserido nessa escuridão de alma, medo do futuro, falta de esperança..
Estou pensando qual será minha próxima perda... preparando meu coração para me conformar com a AIDS, com a falta de recursos, com a falta de dinheiro, mas não me conformando com a falta de Jesus na vida de meus amigos e amigas... continuarei aqui, clamando por sabedoria e oportunidades para falar do amor de um Deus que traz conforto, paz de espírito, salvação da nossa vida, promessa de uma eternidade toda a seu lado...
 
Adeus Assani, titia Ana amou ter conhecido você... fiz tudo o que podia pra te ajudar, fiz tudo o que estava ao meu alcance, e mesmo chorando estou feliz que hoje vc não está mais sofrendo, mas está brincando no céu, respirando perfeitamente, com seu rostinho limpo e um corpo sem imperfeições... estou feliz q vc conheceu Jesus e espero um dia te encontrar de novo... Bjos... Titia Ana 

 Essa foi a última foto que tirei de Assani, dia 24.04.2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada

Mocimboa da Praia, 26 de julho de 2010.

 
Quase não consegui expressar em palavras o que senti hoje... 
 
Ao entrar na sala da Manadjúma, me deparei com seu marido Ebraimo sentando no canto da mesa, de pernas cruzadas e desenhando a planta da sua nova casa...
Manadjúma perdeu sua casa para a sua família... ela se casou de novo, com um marido que sua mãe não aprovava... Sua mãe é feiticeira e fez de tudo para que ela abandonasse Ebraimo.... Depois de sofrer terrivelmente pelos feitiços feitos pela própria mãe, deixou sua casa própria, que construiu com suas economias e se mudou para uma casa de favor... bem em frente a minha...
Mês passado, ela e seu marido adquiriram seu novo terreno...
Ver Ebraimo desenhando com caneta Bic azul e vermelha a planta da sua casa... a lateral... a varanda... a frente... os fundos... com tanto capricho e préstimo... sonhando com uma casa que provavelmente levará anos e anos para ficar pronta... me fez pensar que somos todos iguais... feitos de carne e osso... e por vezes temos o mesmo sonho... o tão sonhado “sonho da casa própria”... sonho de pertencer a um lugar... sonho de ter um canto para chamar de nosso...
 
Me  lembrei do meu pai... pois ele também sonhou e sonhou com a casa q vivemos hj no Brasil... “milimetrou” os azulejos da cozinha para que os desenhos dos azulejos decorados e os azulejos brancos fossem dispostos de forma uniforme e perfeita....
 
Naquela sala me senti em casa, me senti acolhida... me senti parte da família... sonhando junto...
E a minha oração é para que Jesus reine naquele lar...
Estejam em oração comigo...
Bjos
Ana

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Parti e não olhei pra trás

Mocimboa da Praia, 09 de julho de 2010.


Parti e não olhei pra trás
E quando olhei me desesperei...
Pois sabia exatamente o que estava deixando para trás e o que iria encontrar...
Sabia os cheiros, os gostos, as saudades, as presenças e solidões...
Com o coração apertado fui abraçada e recebida com muita festa... distribui chicletes para as crianças, brincos para as mulheres e comecei a caminhar novamente pelas ruas de Mocimboa... até que meus pés se habituassem de novo à poeira desse chão tão cheio de necessidades...
Necessidades que muitas vezes já se tornaram normais à minha visão de quase um ano por aqui... mas quando ouvi a experiência da minha primeira visita brasileira, a pastora Márcia, percebi o quanto é mesmo chocante pisar aqui.

Pra ela comer sem luz e com as mãos ao lado do Assanito em plena crise de tosse com tuberculose, passar horas e horas à noite sem TV, rádio, luzes na rua ou barulho de trânsito, se ver sem geladeira, sem descarga, sem carro, tendo q se cobrir com lenços e capulanas e ainda ter q se acostumar com os ratos andando nas madeiras do meu telhado foi muito difícil... mas uma benção para o seu coração que definitivamente voltará para o Brasil com outras perspectivas...

E cá estou... me sentindo mais moçambicana do que nunca... sem que a lista acima me incomode... não mais...

Hoje minha lista está repleta de planos e responsabilidades para o próximo ano curtíssimo onde finalizaremos nosso trabalho aqui...

Acordei e orei... “Deus preciso da sua ajuda e sabedoria... para liderar a Pré-Escola, para discipular e evangelizar meus vizinhos, para abençoar os jovens da minha Igreja...” E Ele veio com sua presença gostosa e encheu meu coração com a esperança e certeza que fará a Sua vontade apesar das minhas incapacidades e limitações:

"Também o Espírito (Santo), semelhante nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26).

Assim, estou de volta em Mocimboa!!!! Mas não estou sozinha!!!
Estou acompanhada do Espírito Santo e dos seus gemidos que levam o meu “não saber orar como convém”, minhas preocupações, medos e ansiedades até o trono do Deus todo Poderoso...

Bjos diretamente de Mocimboa da Praia a todos!!!


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Meu aniversário moçambicano

Mocimboa da Praia, 15 de abril de 2010.
 
 
Desde que cheguei aqui em Mocimboa da Praia, há quase 9 meses atrás, comecei a preparar minha festa de aniversário em minha mente, mas como os planos mudaram conhecendo mais a cultura e os costumes locais!!
Semanas atrás fiz a lista de convidados (mais ou menos 50 pessoas entre adultos e crianças) e o cardápio:
 
  • 18 kilos de arroz
  • 4 kilos de feijão
  • 5 galinhas
  • 4 kilos de batata
  • 8 cocos
  • 0,5 kilo de cebola
  • 2 cabeças de alho
  • 1,5 L de óleo
  • 1,5 kilo de tomate
  • 2 latas de massa de tomate
  • 1 pacote de curry
  • 4 pacotes de suco
  • 7 galões de água
  • Lenha
 
Para receber bem seus convidados em Mocimboa, vc deve servir arroz e “caríli” (nome usado para o molho q acompanha o arroz), sendo esse “molho” feijão, galinha ensopada com tomate e batatas ou cabrito ao molho de tomate e batatas. Escolhi galinha e feijão!
Tudo começou às 6 da manhã com o meu guarda Abdul chegando para matar as galinhas, pois para os mulçulmanos há uma maneira especial de se matar animais, e devem ser eles a matá-los, caso contrário, não comem a comida servida. Ele colocou sua boina islamica, lavou suas mãos e pés, e começou a rezar em árabe: “Eu juro em nome de Ala. Estou aqui a matar esses animais em nome de Ala”.
Logo em seguida o cozinheiro “Smile”, como o chamamos por aqui, começou a ascender o fogo. Assim, meu quintal começou a se transformar em salão de festa, cozinha, tudo!!!! Foi um vai e vem de galões de água (pois há quase um mês estamos sem água na minha casa e dependemos agora dos poços locais), de ralar cocos, de varrer o chão, de arrumar as esteiras, etc.
Meu amigo Momade, de 9 anos, e outras crianças apareceram para me ajudar a carregar panelas, a varrer a frente da minha casa....
Minha família aqui: Sara, Sifa, Zura e Zaína, foram as primeiras a chegar e as últimas a sair... e Sara como a mais velha, me ajudando a coordenar tudo... me dizendo:  “senta pra comer!” (como me vi nela! rss...)
Minha família de “muzungos” (palavra em kimwani para estrangeiro) também estava presente. Sharon, Margareth e Bron (algumas das mulheres do nosso Time), fizeram bolos para mim e eu fiz mais três. Assim, no total tínhamos 6 bolos para servir, o que foi recebido com muita alegria, pois eles só comem bolo no “Idi” (RAMadã Muçulmano) e em casamentos.
Agradeci a todos pela presença, disse q os amava e q eles eram minha família aqui e finalizei com: “Karibu Tena” (Sejam bem-vindos novamente!). Patrick fez uma oração em kimwani, abençoando a minha vida, os convidados e a comida servida.
 
Na minha festa de 29 anos não encomendei salgadinhos, não tive bolo recheado e confeitado, não tive minha família de sangue e amigos de longa data presentes, não usei calça jeans e sandália de salto, mas tive um aniversário espetacular...
Tudo isso me fez reconhecer a realidade em que me encontro hoje... me fez lembrar da comodidade antes vivida: encomendar o bolo por telefone, de ir ao supermercado de carro e comprar os produtos e ingredientes para a festa, ao invés de comprar galinhas vivas, matá-las, depená-las, ascender o fogo à lenha, buscar galões de água, usar capulanas, lenço e chinelos..
Mas só posso dizer que amei!!! Curti cada segundo e me senti realizada em proporcionar isso para as pessoas que estou aprendendo a amar dia após dia....
Deus foi maravilhoso e fiel em prover comida suficiente, em me dar de presente um dia de sol em meio a uma estação de chuvas e de estar me dando mais um ano de vida...

Vejam as fotos desse aniversário aqui no meu álbum.
 
Assim, obrigada Jesus!! Obrigada por tudo, tudo!
Bjos a todos!!!
Ana 


 
 
Ps: Hj minha vó Ester estaria completando mais um ano de vida... Sua vida de oração e devoção à Deus abençoaram tremendamente toda a família.. e tenho certeza q é resposta às suas orações eu estar aqui hoje... Ela é um exemplo de mulher e cristã pra mim... Sinto muitas saudades.... 
 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O melhor presente de natal

Mocimboa, 21 de dezembro de 2009.
 
Jesus é mais que uma história para mim....
 
Definitivamente ganhei meu melhor presente de Natal na noite passada....
Sentada na minha sala as 23:30 da noite, do outro lado do oceano, com a minha lanterna em punho, com todas as luzes apagadas  (não tínhamos energia suficiente em nossa bateria solar), liguei a minha internet e escutei o Culto de Natal da minha igreja no Brasil...

Não consigo expressar em palavras a emoção, a alegria e o contentamento de ouvir a Cantata de Natal entoada pelo coral que meus pais fazem parte... Ouvir a voz dos meus pais, dos meus tios e tias, da minha prima foi realmente um presente para mim...
Chorei, cantei junto, orei e estive presente no Culto de Natal com a minha família... Fiquei imaginando...
  • meu lindo pai com seus óculos a ler as letras...
  • a roupa e os brincos que minha mãe estava usando... 
  • minha irmã segurando minha sobrinha no seu primeiro Natal entre nós...
  • minhas tias Tânia e Sandra na Igreja.... que alegria saber que elas estavam prestigiando a cantata junto com a gente...
  • a cara dos meus tios Lutero, Paulo e minha prima Caroline fazendo solo com suas maravilhosas vozes...
 
Imaginei tanto que me senti sentada numa confortável cadeira azul a apreciar uma Cantata bem preparada, consistente, evangelística e que honrou o aniversariante do mês e seu poder de salvação através do seu nascimento numa manjedoura...
 
Parabéns Coral!!! Parabéns a vocês que ensaiaram com tanto carinho e amor!!! Estava lindo, lindo!!!
 
Graças a Deus que me ama e me proporciona momentos especiais como esse...
Feliz Natal de novo a vcs amigos e queridos..
Amo vcs
Bjos
Ana

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Hoje houve salvação entre o povo mwani!!!


Mocimboa da Praia, 16 de novembro de 2009.

 
No dia 13 de novembro escrevi sobre minhas novas amigas, sem saber quais seriam os planos de Deus...
Hj pela manhã fui à casa de Claudia e quando ela me viu as lágrimas começaram a rolar pelos seus olhos... ela me disse... “a doença não sai do meu corpo Mana Ana, não sai”. E logo sua irmã veio me contar que no domingo tiverem uma cerimônia que se chama “Pungue”, são batuques para que os madjínes se manifestem e para que eles possam expressar seus desejos para deixarem as pessoas livres, e a pessoa em questão era Claudia.
Nesta cerimônia os madjínes estavam exigindo novas capulanas, dinheiro, bolos e galinha para deixar o corpo de Claudia... E se não bastasse, o curandeiro cortou toda a canela de Claudia, em pequenos cortes, para que os medicamentos penetrassem e a curassem.... 
Vcs podem imaginar quantos espíritos malignos envolvidos nesta cerimônia? E uma das irmãs me disse, “Ana, antes da cerimonia fomos até a sua casa mas pensamos que vc estivesse na Igreja, e depois da cerimônia eu só conseguia pensar em vc, mas não tive forças de ir na sua casa”.
Neste momento eu já estava chorando... chorando por ver minhas novas amigas desesperadas por cura, por libertação, por alegria, e elas me procuraram e não me encontraram! Me senti culpada... mas no mesmo momento comecei a ministrar a elas... Disse que só havia uma maneira de Claudia ser liberta e era através de Jesus... Ela tinha em seu pescoço um colar que o curandeiro colocou e o cordão envolta da sua cabeça. Eu disse que aquelas coisas não a ajudariam, e na mesma hora sua mãe os tirou! Vcs acreditam? Nesta atitude comecei a enxergar o quanto elas estavam abertas para o evangelho.
Claudia deitou no meu colo e eu comecei a orar por ela, repreendi todo mal e clamei pelo nome de Jesus. Mas entendi que algo mais deveria ser feito e perguntei se eu trouxesse um amigo para ler a Bíblia e orar com elas, se elas aceitavam. Elas disseram, sim, por favor!
Saí correndo e fui para casa do meu líder me aconselhar quanto a melhor atitude a ser tomada. Decidimos por pedir ajuda ao irmão Patrick, membro do nosso time, africano proveniente do Quênia, fluente no kmwani e com uma longa experiência em batalha espiritual...
Assim, nesta tarde Patrick e Margaret, nossa nova missionária vinda da Austrália, me acompanharam nesta visita. Sentamos no chão e Patrick começou a ministrar sobre o poder de Jesus, sobre seu poder sobre todos os demônios, madjínes e espíritos malignos. Ensinou-as sobre Seu imenso amor na cruz e sobre a importância Dele perdoar nossas pecados... e quando ele perguntou se elas queriam este Jesus, Claudia e suas irmãs respondera, “Sim, queremos Jesus na nossa vida”.
Já com as lágrimas rolando, oramos juntas. Orei em português fazendo a oração de entrega, e todas declararam que Jesus era o Senhor de suas vidas. Em seguida Patrick orou especificamente por Claudia, repreendendo todo espírito maligno e ela declarou muitas vezes na oração, que “Jesus é o Senhor da minha vida a partir de hoje”!!!
Queridos... vcs não sabem como meu coração ficou alegre com este momento... esta família era uma família muçulmana, aprisionada pelos feitiços e pelas promessas de cura que nunca chegavam em sua casa... e hoje chegou salvação na casa de Clauida, Sueli, Rebeca e Mara!!! Glórias a Deus pois Ele é Deus de salvação, de paz, de cura, de alegria, de mansidão, de tranqüilidade, de libertação...
Mais tarde voltei para ver como elas estavam e ao me despedir Claudia disse “Mana Ana, não vai orar por mim?” Já imaginaram isso? E eu orei... com muito prazer e alegria perante o meu Deus... e perguntei... onde Jesus está hoje? E ela disse: “No meu coração”!!! Elas entenderam a mensagem salvadora de Jesus...
Só consegui entender a onisciência de Deus ao permitir todo esse ritual em que Claudia esteve envolvida ontem... pois elas perceberam que mesmo depois de clamarem por horas e horas, mesmo depois de pagarem uma boa quantia para o curandeiro, depois disso, Claudia ainda estava doente, com o peso dos espíritos malignos em sua vida e todas estavam a chorar de dó da irmã e filha... Uma das irmãs me disse: “Hoje mana Ana, acordei cansada, com o corpo doendo, com a cabeça ruim” e eu disse que era por causa de todo o ritual... mas que Deus podia tirar o peso de suas costas, e hoje Ele tirou! Hoje o Deus Vivo, o Príncipe da Paz, o Senhor dos Céus e da Terra, o Deus dos deuses, penetrou na vida de minhas amigas...
Assim, peço e clamo para que estejam comigo em oração...
Há muita guerra espiritual envolvida, muitos espíritos malignos a espreita dessa família....
Peço que orem:
  • por total libertação espiritual na vida de Claudia;
  • pela suas irmãs Sueli, Rebeca e sua sobrinha Mara, que receberam a Jesus;
  • pela minha vida, que Deus me cubra de proteção espiritual e sabedoria, pois começarei a discipulá-las amanhã;
  • pelo nosso Time que começará um novo trabalho com novos convertidos;
 
É isso meus amados... se alegrem comigo, pois hoje houve salvação entre o povo mwani!!!
 
Só queria compartilhar dessa alegria com todos... Deus está trabalhando e foi por isso que Ele me mandou aqui... é por Ele e para que outras pessoas conheçam o seu nome que não estou segurando em meus braços minha sobrinha que acabou de nascer... é por amor à sua Obra e ao seu Reino... e isso enche meu coração de alegria e satisfação...

Bjos a todos
Ana

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A visita de um anjo

Por causa do nascimento da Manuela, acabei atrasando um post da Ana. 
Segue abaixo um texto escrito semana passada. Desculpem o atraso.
Renata (administradora do blog)


Mocimboa da Praia, 13 de novembro de 2009.
* O nome das mulheres citadas a seguir foram mudados para maior proteção * 
 
Estava ajudando uma das minhas vizinhas a pegar água num poço, quando fui saudada por três moças... elas foram muito simpáticas e gostei delas logo de cara... Uns dias depois, voltei ao mesmo local tentando encontrar a casa delas... entrei na casa errada, pedi desculpas e quando estava voltando pra casa, uma menina que eu não conhecia me chamou pelo nome e me convidou a conhecer sua casa.... e quando dei por mim, era a casa que estava procurando, isso não é mesmo um milagre? 
 
Sentei na esteira com elas e descobri que elas faziam parte da mesma família, ali tínhamos irmãs, mãe, vó e sobrinhas... e em alguns minutos já estávamos rindo juntas, elas me ensinando kmwani e me pedindo para ensinar inglês para elas... Assim, marcamos nossa aula de inglês para aquele mesmo dia e quando cheguei, algumas estavam me esperando com caderno e caneta em punho! Essa só foi uma estratégia de firmar meu relacionamento com elas.... e tem sido assim, há três semanas tenho ensinado inglês e recebido aulas de kmwani.... São elas: Mama Sueli, Sueli, Claudia, Rebeca e Mara... e tem sido uma benção!
 
Há uns dias atrás fui até lá e encontrei Claudia muito doente, uma mulher de seus 30 anos, alta, muito magra, afundada com seu corpo miúdo numa cama, com seu cabelo cortado (raspado na verdade), e com um cordão preso na cabeça com letras do Alcorão escritas em um pedaço de papel (poção feita por um curandeiro). Foi uma cena deplorável, a tristeza e o cansaço eram visíveis em seus olhos... e quando perguntei o que ela tinha, uma de suas irmãs me respondeu: “Mádjine”! Na cultura mwani, se vc tem mádjine, significa que vc tem um espírito dentro de vc, que só pode ser controlado por poções e rituais feitos por curandeiros.... Naquela hora me dei conta que aquele cansaço e tristeza eram provenientes de uma vida escravizada por um espírito mal.... E meu coração se compadeceu de Claudia, naquele momento a amei com todo amor que tinha disponível e com coragem vinda de Deus pedi se podia orar por ela.  Sabia das conseqüências e do que poderia acontecer se eu orasse em nome de Jesus, o nome mais poderoso do que qualquer espírito... mas mesmo assim orei... Ela agradeceu muito e eu fui pra casa. 

No dia seguinte fui visitá-la novamente e ela me disse: “Mana Ana, me senti muito melhor depois da sua oração. Mas essa noite acordei e algo me bateu na cabeça, tava meio dormindo, e eu vi Mana Ana, eu vi um Anjo!!!  Eu vi duas vezes. Ele estava bem aqui do lado da minha cama. Eu fiquei com medo e chamei Mama”. E eu perguntei como era este Anjo e ela me disse que ele era muito grande, muito alto, e muito branco. Perguntei se ela achava se era um anjo bom ou mau, e ela me disse, “era um anjo bom, pois se fosse mau era pra eu já estar morta”. Naquele momento senti em meu coração que realmente Deus podia ter enviado um Anjo no quarto da minha amiga Claudia, e na presença de outras vizinhas que estavam no quarto pedi se podia orar por ela de novo. E orei, repreendendo qualquer espírito na vida de Claudia e pedindo a Deus que enviasse mais anjos àquele quarto. E hj pela manhã, encontrei Claudia sentada na esteira no quintal, comendo, vestindo roupas limpas e com um sorriso no rosto me dizendo “Mana Ana, Asante Ushukuru (Muito obirgada!), você foi até Deus, pediu por mim e ele me curou”... Simplesmente Claudia reconheceu que meu Deus a curou... e todas as irmãs, mama e sobrinhas, estavam me agradecendo pois eu tinha orado a Deus, e ele tinha escutado a minha oração... 
 
Glórias a Deus por Ele ter colocado essa família no meu caminho... glórias a Ele pela cura e pela restauração na vida de Claudia... 
 
A minha oração agora é que elas sintam o amor de Jesus através da minha vida, através do carinho que demonstro.... que elas reconheçam que existe um Deus que cura, liberta, traz felicidade, paz e muitos anjos a nos guardar...
Peço que orem por Claudia e por toda sua família...


Ah! E tenho noticias do Assanito... Deus tem ouvido nossas orações: Assanito já está a se alimentar melhor, está andando pouco a pouco, mas posso ver nos seus olhos que Deus tem operado sua cura na vidinha dele... Obrigada a todos que oraram por ele...
 
Bjos a todos...
Saudades
 
Ana

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Churrasco, funeral... Surpresas do dia a dia

Mocimboa da Praia, 26 de outubro de 2009.

 
            O domingo estava a transcorrer como um típico domingo em família como os que tinha aí no Brasil... comida gostosa, cia deliciosa e quitutes sendo preparados.... Almoço todos os domingos na casa da família do meu líder Steve, com batatas fritas envoltas em um omelete e espetos de carne de cabrito. É o único dia da semana que como carne vermelha e estes pequenos pedaços de cabrito tem mesmo gosto de churrasco, graças a Deus!!
            Eu e Jennyfer passamos a tarde com Sharon e sua filha Krista, enquanto os homens e seus filhos foram assistir um importante jogo do Manchester e não sei mais quem... foram em um vizinho que possui gerador, televisão e parabólica... coisa raríssima na Vila de Mocimboa...
            Estávamos a fazer “rolinhos de canela”, uma massa de pão enrolada com margarina, açúcar e canela, quando o guarda de Sharon veio com a notícia... “Nuro morreu”!!! Simplesmente Nuro é o pai de Assanito!! Pai biológico, mas nunca dedicou mais que cinco minutos de sua vida pelo Assanito.
Nuro era um dos comerciantes mais bem sucedidos da Vila de Mocimboa. Era dono de uma ótima loja, tinha muito dinheiro, assim, como muitos filhos espalhados por esta Vila....
            Ágata se envolveu com ele quando tinha apenas 16 anos e ele na faixa dos seus 45... Nunca houve casamento, nunca houve reconhecimento do filho, nunca houve um registro paterno.... nunca houve cuidado, amor, dedicação e agora pai de Assanito está morto...
            Assim que cheguei em casa fui correndo ver minha amiga... a abracei e ela começou a chorar... “Meu filho vai sofrer muito Ana, vai sofrer muito....”
            Na segunda-feira passada Ágata veio com 20 meticais de crédito para ligar para o pai de Assanito... usou meu celular e eu vi nos olhos dela a dor de ser desprezada e por ter um filho que não é reconhecido ou mesmo lembrado pelo próprio pai... Ela repetiu duas vezes quem estava falando, pois ele insistia em não saber quem estava do outro lado da linha....  Ao desligar o telefone me disse que estava muito triste pelo filho, que se ele tivesse saúde, Nuro não iria nunca mais saber do filho, mas que ela precisava da ajuda financeira dele para que a saúde de Assanito tivesse alguma melhora... e agora... Assanito é órfão de pai.... um pai que por vezes bateu em sua mãe pois ela estava a pedir dinheiro pra alimentá-lo...
            Acabei de ir ao funeral, um dos maiores que Mocimboa já teve.... Assim que desci a rua da minha casa me deparei com centenas e centenas de mulheres sentadas em grupos à procura de sombra. Fui acompanhada das minhas vizinhas Ângela, Fátima, Madjuma e Verônica... Ágata se recusou a participar do funeral...
            Sentamos amontoadas com outras mulheres, porém não se via nenhum homem. Todos eles passavam reto para a rua debaixo e comecei a fazer mil perguntas, em português é claro, para Ângela. Ela disse que os homens estavam indo para a rua que dava pra frente da casa, e como estamos no contexto de uma tribo islâmica, a tribo Mwani, não é permitido às mulheres verem a saída do corpo de dentro da casa.... Somente a família vela o corpo e só às mulheres da família é permitida a entrada na casa.
            Continuamos sentadas por quase uma hora quando um homem veio até o nosso imenso grupo de mulheres fazendo um discurso sobre a vida de Nuro, dizendo que o corpo estava sendo levado ao cemitério... disse também que todas eram bem-vindas para o chá a ser servido com pão na manhã seguinte, logo às 6 da manhã....
            Depois deste informe, carros e caminhões começaram a surgir lotados de homens: jovens, velhos e adultos (não se via nenhuma criança, somente as de colo, pois em funeral muçulmano crianças também não tem permissão de participar)... outros tantos à pé... todos em direção ao sepultamento...
            Quando de repente, da direção da casa de Nuro comecei a ouvir gritos e mais gritos de desespero, choros e lágrimas que vinham de mulheres e crianças... nunca tinha ouvido o choro ao vivo de mulheres muçulmanas pelos seus mortos e foram minutos realmente tristes... Quem estava a conversar e a se distrair parou o que estavam fazendo em reverência ao pranto de mulheres que agora se vêem desamparadas  pois, o principal progenitor da família morreu... Mas não sabemos quantas mulheres estavam chorando no mesmo tempo, muito longe dali pois o pai de seus filhos os tinham deixado órfãos.... como Ágata estava a chorar em sua casa pelo pequeno Assanito...
            Assim que sai do funeral passei na casa de minha amiga e no canto de seu olho direito pude ver lágrimas que ainda não tinham rolado pelo seu rosto... ela está desolada, desamparada de ajuda financeira, que mesmo que rara, às vezes chegava até Assanito...
            Peço que continuem a orar por Assanito, pois descobri que a esposa de Nuro tem AIDS, assim, é quase certeza que Nuro também possuía AIDS e agora fico a me perguntar por Assanito e Ágata.... essa nova informação se um dia confirmada explicaria muita coisa na saúde de Assanito...
            Meus dias na África tem sido inesperados, cheios de surpresas tristes e felizes... cheio de desafios para uma mente que às vezes se sente tão limitada em responder a todas as exigências conferidas.... tenho estado exausta... o que é muito bom, pois amo dia cheios.... vou para a cama por volta das 21 pois a maioria das manhãs meus olhos se abrem antes das 6... e todas as manhãs peço a graça de Deus pois não sei quais emoções e acontecimentos estão reservados para aquele dia...
            Mas posso dizer que cada dia mais este chão tem se tornado mais gostoso de ser pisado e tenho realmente curtido os dias que Deus tem me dado aqui.....
            

Bjos pra todos...
Ana