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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Africa 2012 - Bunga/Espungabera

Avião de Beira para Pemba, 15 de julho de 2012.
A primeira etapa da nossa jornada se foi. O time se dividiu em três partes... Eu estou indo para o norte visitar minha família em Pemba e Mocimboa da Praia, David ficou em Espungabera e o restante seguiu para a Casa das Formigas em Maputo.   
Abraços foram dados, promessas de reencontros em tantas casas espalhadas pelo Brasil já foram pré-agendados... a primeira despedida já ocorreu...

Nosso time formado de 11 brasileiros, pertencentes a igrejas diferentes, com personalidades distintas e ministérios diversos foi uma prova que Deus une e abençoa aqueles que estão dispostos a servir. Nos encontramos no aeroporto, alguns pela primeira vez, e de lá partimos como uma família.
Bunga foi nosso lar por 4 dias, marcados por horas intensas de trabalho.... Nos dividimos e tivemos ministérios para homens, mulheres e crianças.
Encontramos mulheres se ajoelhando para serem ouvidas pelos homens, mulheres que trabalham de dia e de noite para suas famílias, homens disseminando uma cultura machista e castradora por falta de instrução e conhecimento, crianças analfabetas, carentes e famintas... o desafio a cada minuto era imenso...
Com as mulheres, homens e casais, ouvimos confissões, desabafos e o quanto alguns aspectos da tradição e cultura trazem falta de paz e qualidade de vida pra esse povo. Foram trabalhados aspectos de casamento, papeis a serem desenvolvidos na família, educação escolar, higiene, saúde da mulher, violência, e tantos outros... 
Novas ideias, perspectivas e luz através da Palavra foram disseminadas dia a dia, e já pudemos ver algumas mudanças, outras serão realizadas através de muita, muita oração.... A semente foi plantada e temos certeza que o Espírito Santo vai continuar agindo nas mentes e corações.
 
O trabalho com as crianças foi um sucesso. Historias foram contadas, músicas dançadas... foram tantas atividades que as crianças aguardavam a surpresa do outro dia... O fantoche chamado “Sambo” da nossa amada missionária Didi veio visitar novamente o povo, que o aguardava ansioso.... Era uma alegria ver as crianças correndo atrás das bexigas e bolas, com os dedinhos pintados de tinta... Foi fascinante ver seus olhinhos brilhando a cada historia, a cada contato com o novo...
Ao deixar Bunga percebemos o quanto o Brasil não nos fez falta e o quanto uma atitude de flexibilidade, otimismo e abertura de coração para o agir do Espírito em nós fazem toda a diferença....

Nosso time não reclamou dos banheiros com buraco no chão, dos banhos com os pés na terra, das noites em sacos de dormir, dos cabelos duros de terra, das mãos sujas e pés cansados... Foi agradável perceber a interação e o amor demonstrado no cuidado um com o outro, nas orações constantes, no carinho expresso pelo time que nos recebeu...
Saímos desta etapa com a sensação de dever cumprido, de gratidão imensa a Deus por ter sido tão gracioso em operar milagres e maravilhas apesar de nós mesmos, de nos presentear com a sua doce presença que modificou as nossas vidas através da interação com um grupo de pessoas tão simples, mas tão ricas.
Aprendemos muito mais que ensinamos, e seremos gratos pra sempre por esse tempo....
Só tenho dizer a cada um de vocês, querido time, muito obrigada... liderar um time como este, juntamente com Pr. Pedro foi mais que um presente...
Muito obrigada Jinx, Dawn e Cecília por nos receber tão bem e por testificar que Jesus vive através das suas vidas e ministério.
Amo cada um de vocês do mais profundo do meu coração e estarei orando para que a jornada de cada um seja completada aos pés do nosso Deus...
Me despeço com lágrimas nos olhos, com o coração apertado de saudades e com gratidão a Deus, na certeza q Ele estará presente com vcs o tempo todo...
Beijos e abraços bem brasileiros..
Nos vemos em breve!!
Ana 

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crianças esquecidas numa aldeia africana

Espungabera, 26 de junho de 2011.



Eu não sabia o que me esperava, só sabia que era longe... muito longe... Espungabera era conhecido a mim somente pelos relatos da minha amiga missionária Cecília.



A terra foi ficando cada vez mais vermelha a cada quilômetro trilhado. A serra começou a aparecer de forma íngreme até chegarmos ao topo de uma linda montanha. Mas o tempo no conforto desta terra vermelha foi curto. Logo já começamos a nos preparar para passar 5 dias na aldeia de Macumba, totalmente isolada no mato a uma hora e meia de Espungabera.



A mata era fechada e a Land Rover em que estávamos ia abrindo caminho pelas clareiras... eu só conseguia pensar: “Se eu tiver que sair correndo, para onde eu corro?” Não havia para onde correr....



Montamos nossa barraca atrás da Igreja e logo dezenas de crianças começaram a aparecer, com seus olhinhos atentos, curiosos, sedentos, famintos, espertos... Participei com a missionária Didi, Cecília e um jovem moçambicano chamado Manguiza de um treinamento sobre como ensinar crianças na Escola Dominical....



Com pensamentos inocentes e despreparados, me deparei com uma realidade espiritual totalmente escura e sombria. Não sabia que aquela região é centro de muitas reuniões e treinamento de feiticeiros e curandeiros de toda a África...



Um dia, estávamos sentadas em volta da nossa barraca e uma menina chamada Itipo, de apenas 5 anos de idade, ficou possessa de espíritos malignos. Ela estava sentada no chão e sua coluna ia pra frente e pra trás, quase arrastando seu rostinho na terra. Suas mãozinhas ficaram duras e ela não tinha nenhuma expressão em seu olhar. Sua irmã Helena, que estava ao seu lado, fazia carinho em suas costas o tempo todo. Depois de orarmos por ela, ainda demorou muito para que ela conseguisse nos olhar nos olhos, a sorrir... Eu não sabia o que pensar... nem sabia como agir...



Tomar banho no mato, usar o banheiro no mato, apesar de extremamente desconfortante não se comparava ao peso e ao desconforto de conviver tão de perto com pessoas sobrevivendo em meio a uma pobreza generalizada. As crianças estavam muito sujas, cheirando mal, o frio era cortante e elas não tinham nenhuma roupa apropriada ou calçado pra se protegerem do clima gelado. Elas se amontoavam na fogueira à noite e logo ao amanhecer...



O grau de pobreza que encontrei em Macumba foi terrível. A pobreza espiritual, a lacuna de amor, esperança, paz, a carência em todas as expressões daquelas mães, crianças, pais e famílias fizeram com que o nosso coração se cansasse de tamanha disparidade... Assim, além de treinarmos pessoas para o ensino bíblico infantil, contamos histórias bíblicas para as crianças, cortamos suas unhas, visitamos, fomos buscar água, brincamos, pintamos seus rostinhos e é claro, também fomos pintadas... E o mais impressionante, conheci a Essináti, uma menina de 9 anos que lê perfeitamente o português e que nos pediu uma Bíblia pra ler... uma emoção sem medida...  



Mas Glórias a Deus pelo seu filho Jesus, pelo seu amor e misericórdia por nós e pelo povo de Macumba. Sua luz brilhou naquele lugar e continuará a brilhar através daquelas crianças... Deixamos aquela aldeia felizes pelo trabalho realizado, pelo amor demonstrado e pelo aprendizado com um povo sofrido, mas que tem aprendido a conhecer  e a temer a Deus...

 

Passar esses dias longe da minha terra em Mocimboa da Praia tem marcado a minha vida de forma impressionante... tenho conhecido um outro Moçambique... e a idéia da despedida tem ficado cada dia mais dolorosa...