sábado, 9 de abril de 2011

Ele me basta

Pemba, 09 de abril de 2011.

Daqui a 14 dias farei 30 anos...
Entrarei na casa dos 30 feliz comigo mesmo...
Realizada profissionalmente e ministerialmente...
Sem a barriga de tanquinho tão sonhada... mas com a alma leve e em paz...


Hoje, cantarolando uma das minhas músicas preferidas “Eu quis dizer, você não quis escutar. Agora não peça, não me faça promessas. Eu não quero te ver, nem quero acreditar, que vai ser diferente que tudo mudou. Você diz não saber o que houve de errado e o meu erro foi crer, que estar ao seu lado... bastaria...”

Quando cantei essa última parte me dei conta de quantas vezes acreditei nesta frase... De quantas vezes coloquei todo o peso da responsabilidade em outra pessoa para que esta me bastasse em tantos sentidos...

E hoje, quase aos 30 anos, solteira, longe de casa e dos meus conterrâneos, posso dizer que encontrei aquilo que me basta...

Só Jesus me basta...

E posso visualizar a cara de perplexidade de muitos ao ler esta última frase... e não os culpo. Pois, sim, esta frase é muito subjetiva... Mas não para mim. Hoje ela é real. Hoje a pessoa de Jesus é real para mim...

“Antes, eu o conhecia só de ouvir falar, mas agora, meus olhos te vêem”.

Esta fala se tornou real na vida de Jó quando ele perdeu tudo, mas ganhou a paz....
Essa frase se tornou real pra mim quando entreguei os pontos de tentar viver essa vida pelas minhas próprias decisões e achismos... quando me rendi a um amor que completa, que sara, que vivifica, que restaura, que acolhe, que nos impulsiona a sermos nós mesmos, debaixo de suas asas de graça e misericórdia...
Que tomei a coragem de negar tudo... companhias, namoros, família... quando tomei minha cruz e o segui...
Foi nesta jornada rumo a servir ao outro que recebi o banquete de me encontrar feliz e em paz comigo mesma... de me amar como sou... “pois ele me amou primeiro”.

Não arregalem os seus olhos ao pensar que minha salvação foi ganha na África... Não...

Eu aceitei a Jesus na minha infância e ele tem sido meu companheiro por toda a vida... Mas infelizmente em muitas situações ele foi apenas um ator coadjuvante das minhas aventuras insensatas...
Hoje é Ele quem dirige, hoje é Ele quem comanda... Não sem respeitar tudo o que sou, pois como Ele é educado!! Amoroso, respeitador... Não impõe, mas sempre me dá a chance de escolher... e hoje e pra sempre... escolherei por Ele...

Fazer 30 anos com esta perspectiva de vida é o melhor presente que poderia ganhar...

E não posso deixar de compartilhar com vocês uma música que foi uma surpresa pro meu coração... espero que seja pra vcs tb...

Bjos

Ana


 
“Eu vou poder amar de novo como antes
E celebrar a recompensa dos amantes
Tomar no colo os meus filhos sem receio
Voltar a ser de minha casa a dor no esteio
Quero correr feito menina entre as parreiras
E me deixar levar nas velhas corredeiras
Quero esquecer os 12 anos e os tormentos
E que gastei inutilmente os meus proventos
Sinto chegar uma alegria sem medida
Sinto que agora vou saber o que é vida
Serei curada de maneira inconteste
Se eu com fé tocar na orla de suas vestes.”
(Carol Gualberto)






quinta-feira, 24 de março de 2011

Compaixão

Mocimboa da Praia, 22 de março de 2011.
 
 
Ela veio até minha casa... veio me pedir que guardasse um segredo... veio me contar que estava com AIDS... É por isso que vcs não saberão seu nome...
Mas saberão o que já é comum a mim: tenho mais uma amiga que tem essa doença terrível... Ela disse que não queria tratamento e que se ela morresse, era vontade de Deus.
Três meses se passaram e ela me escreveu uma linda carta, me pedindo enfim, ajuda para fazer o bendito tratamento...
“Você mana por favor ajuda... Mana, hei de morrer agora...”
E hoje, um mês depois de sua carta, passei o dia todo no hospital na companhia de uma amiga doente, desfalecida, com os olhos vidrados de dor, com a pele queimando em febre, cortada com gilete, pois foi no curandeiro... Assim que o enfermeiro a perguntou se os cortes eram provenientes do curandeiro e ela olhou pra mim e disse: “Mana, não zangar comigo, eu estava a tentar...”
Um corpo suado, mal amado, que leva as marcas de uma vida sem Jesus...
Hoje minhas lágrimas começaram a rolar antes mesmo de chegar ao hospital... lágrimas pela exaustão emocional a que sou entregue todos os dias.... Exaustão física pelas andanças e tentativas, muitas vezes frustradas, de ajudar aqueles que não tem voz...
Essa exaustão é difícil de ser compartilhada, é difícil de ser compreendida, é difícil de ser acreditada...
É por isso que muitos missionários estão a sofrer pelos campos nesse mundo de nosso Deus... pois só o sente... só o sabe... quem já o viveu...
Estou hoje expondo a minha exaustão, a minha tristeza, a minha angustia e descontentamento com uma vida injusta, com um mundo injusto...
Sentada na minha cama, sentindo o perfume do meu sabonete Dove (que é um alento para a minha alma e meu corpo), só consigo pensar que esse mundo não é justo!!!
Minha amiga está lá dividindo uma mísera cama de hospital com outra mulher por falta de leitos, num lugar sujo, calorento, fedorento... e eu aqui, sem ter mais o que fazer... a não ser orar e pedir a vocês que me ajudem em oração...

Orem pela cura da minha amiga...
        Orem por sabedoria para que eu converse com tantas outras amigas q ainda se recusam em se tratar...
         Orem para que elas sintam o amor de Jesus através do meu toque e carinho...
Só em Deus há justiça, pois ele é justo...
         Só em Deus há renovo, pois ele é repleto de esperança e misericórdia....
          
         Só em Jesus há salvação...



"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; 
porque quem ama aos outros cumpriu a lei".  Rm 13.8

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Atravessando o oceano

Quênia, 10 de fevereiro de 2011.

 
O amor se torna mais real quando nossas palavras atingem mais do que o plano subjetivo do pensar e falar, e alcança a forma física do agir e fazer...  
Foi assim que senti o verdadeiro amor de Jesus por mim e pela sua obra, através de ações concretas que demandaram tempo, energia, dinheiro, deslocamentos, horas e horas pensando e repensando na qualidade de livros, enciclopédias, livretos, revistas e dicionários a serem enviados para um continente tão carente como o Africano.
É o sentir desse amor de Deus por nós através da vida de outras pessoas (que as vezes nem conhecemos) que faz o evangelho de Cristo se tornar real e significativo. Pois sua vinda, morte e ressurreição veio concretizar a vida coletiva, o pensar no outro mais do que em nós mesmos, o doar, o agradecer, o compartilhar...
E estou aqui, humildemente reconhecendo esse grande amor que vai além de fronteiras, distâncias, línguas, tribos e nações. Que vai além de placas de igrejas, instituições, empresas e órgãos governamentais...
O amor que a população de Mocimboa sentiu, que o Time de missionários em Mocimboa sentiu através do envio de malas e malas repletas de livros e conhecimento a ser repassado... foi real, foi palpável, foi significativo, foi genuíno, foi cristão...
Nomear pessoas, instituições e igrejas não seria justo, pois muitas doações foram anônimas e nunca saberei essas pessoas...
Então meu agradecimento vai para todos aqueles que de forma direta ou indireta contribuíram para que nossa Biblioteca Karibuni fosse preenchida não só com novos conhecimentos e saberes, mas também com um amor e carinho que veio além mar...
Obrigada, obrigada, obrigada...
Gostaria de abraçar um a um... e peço a Deus que isso ainda me seja possível...
Que Deus os abençoe e continue a tocar os seus corações em abençoar outras tantas Mocimboas por esse mundo a fora...
Com amor, orações, carinho e muito agradecimento.
Ana

 Minha mãe e minha amiga Renata: nossas ajudantes no Brasil






terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma visita especial

Pemba, 24 de janeiro de 2011.

Despedidas são sempre tristes quando não se quer separar, quando não se quer despedir, quando se quer continuar com a presença da pessoa...
Me despedir do Rafa foi um processo de lágrimas q rolaram pouco a pouco... um processo de aceitação q iriam com ele somente algumas bagagens minhas, mas não minha presença...
Quem estava voltando para o Brasil era ele e não eu...
         Nossos dias em África foram recheados de sorrisos, de confissões, de gírias e palavreado com um português brasileiro do bom...
          Foi preenchido pela companhia, pela convivência marcada por laços de sangue, por divergência de idéias, por gargalhadas altas e sinceras, por olhares entendidos, por discussões e bravezas comuns àqueles q se chamam irmãos...
          Minha casa se encheu da presença alta dele, do som do tocar de um violão emprestado... onde músicas antigas foram desenterradas, lembranças dos anos de adolescência e infância trazidas à tona: “Satisfação é ter a Cristo...” , “A vitória é daquele q o adorar...” , “Em todo o tempo eu louvarei ao Senhor...” , “Aquele que sonda o meu interior...” ,  “Solta o cabo da nau...”  , “ Na estrada em que eu andei, eu pensei daria certo... pá,pá, pá pá...” , “Há momentos que na vida...”  , “É hora de não olhar pra trás...” , “Entoai saltérios, entoai ó harpas...”,  “Logo de manhã...” , “A vida minha vida, era muito doida...”, “Conheci um grande amigo, ele é filho de Deus Pai...” e muitas outras...
           Esse tempo de cantorias juntos foi o meu favorito... como também o dividir a mesa, ouvir ele me chamando de Tata, andanças de moto, a pé, de barco, de caminhão, no sol, na chuva...  ter notícias políticas e econômicas do meu Brasil brasileiro, notícias de como a Manuela tá se tornando uma menininha adorável e expressiva... e tudo isso sob a perspectiva  dos seus olhos e percepções... ahhh... não teve preço!!!
           Poder compartilhar minha vida, meu dia a dia, meu ministério, minhas alegrias e decepções com alguém que vai entender meu falatório sobre Mocimboa... dividir quarto de hotéis limpos, sujos, assistir filmes, dividir a cia ao ler livros em silêncio mútuo, de bom dias e boas noites...
           Aqui só fica um vácuo... um  saudade doída e apertada... um nó na garganta que não passa... mas uma alegria e satisfação pelo vivido e pelo compartilhado...
            Depois dessa viagem minha relação com meu irmão nunca mais será a mesma... e minha oração é para que continuemos a trilhar nossos caminhos na presença de Jesus, dividindo laços de sangue e carinho, respeitando nossas individualidades, decisões e idéias...
           Amo vc Rafa e obrigada por ter vindo!!!

            Bjos da Tata



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Doação de livros

Mocimboa da Praia, 6 de dezembro de 2010.

Olá queridos,
Tô vindo aqui hoje pra fazer um pedido especial a vocês...
Inauguramos no dia 30 de outubro nossa Biblioteca Karibuni, com o objetivo de abençoar e elevar o nível intelectual e educacional de nossa população.
Foi um dia de muita festa, onde o presidente do município despejou elogios e agradecimentos pela iniciativa.
Porém, nossas prateleiras estão praticamente vazias... precisamos urgente de doações de livros, livretos, revistas, dicionários, etc.
Por favor, olhe para as prateleiras de sua casa e despeje em nossa Biblioteca aquilo que vc não usa e não lê mais... pois aqui tem muitos homens, mulheres, crianças, jovens e idosos sedentos por novos saberes... principalmente de livros em português, que é a língua nacional de Moçambique.

Em Marília tenho duas pessoas especiais me ajudando...
A minha amiga e agente de comunicações... rss... Renata Devidé está recebendo doações pelo seu email redevide@hotmail.com e a Igreja Ágape também é posto de doações, no telefone: (14) 3413-9510.
Minha mãe, minha maior incentivadora, também está recebendo doações pelo email: rutimess@terra.com.br  e pelo telefone (14) 3433-9428.
A 1 Igreja Presbiteriana Independente de Marília também é posto de doações pelo telefone: (14) 3433.2856

Precisamos de:
·         Livros infantis
·         Educacionais
·         Literatura em geral
·         Economia e finanças
·         Agricultura
·         Saúde
·         Nutrição
·         Educação de filhos
·         Casamento
·         Dicionários (português, inglês, francês, espanhol)
·         Gibis
·         Revistas
·         Livros cristãos em geral
·         Livros em inglês.
Mas de verdade pessoal, tudo o que vcs tiverem será bem vindo...
Mas precisamos disso com URGÊNCIA, pois os livros serão enviados para mim até o dia 15 de dezembro e depois em outra remessa no dia 04 de janeiro.

Espero que muitos se mobilizem por esta causa...
Mais uma vez obrigada,
Amo vcs,
Ana Elisa

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Vídeo da Ana

Oi pessoal,

Este vídeo foi feito pra divulgar o trabalho da Ana la em Mocímboa da Praia.




Quem puder divulgue,

Renata

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pressa, exagero e medo

Mocimboa da Praia, 26 de outubro de 2010.


Estava tendo mais um daqueles dias, na loucura desvairada de uma África onde todos precisam de tudo... em que tenho q me desdobrar pra encaixar todas as necessidades e atividades nas horas que se seguem (pois sim, a cor da minha pele e o fato de ser estrangeira abrem portas e faz com que pessoas sejam atendidas com mais decência, que sejam operadas depois de anos de espera... terrível isso!!)

Quem me conhece imagina como estavam meus passos a andar por entre as tendas da UNICEF no nosso Hospital em Mocimboa, quando uma amiga, uma freira canadense me viu e disse: "Slow down Ana, slow down....” Eu sorri e continuei na mesma toada... quando encontro outra amiga, agora uma freira brasileira... e conversando ela me disse:

“Só tenho 3 palavras sobre pessoas com o nosso tipo de personalidade: PRESSA, EXAGERO E MEDO...

Pressa, pois sempre estamos correndo de um lado para o outro tentando ajudar todo mundo, tentando atender necessidades de diferentes lados e vivemos nessa correria louca...
Exagero, pois não sabemos dizer não e com isso muitas pessoas se aproveitam de nós, excedemos na ajuda e acabamos atrapalhando, pois as pessoas deixam de crescer, de se tornar independentes e de arrumar soluções para os seus próprios problemas...

Medo, pois vivemos com medo de desagradar as pessoas... queremos agradar a todos, o tempo todo... "


Quanta sabedoria compartilhada em 5 minutos de conversa!!! E ainda com alguém que me viu algumas vezes, que me conhece há menos de um ano, mas que já me conhece muuuito bem...

Mais tarde contando o ocorrido para minha mãe, ela me disse: “Esse deveria ser um daqueles dias que se Deus pudesse ele te amarrava numa cordinha como se amarra cachorrinhos na coleira, mas como ele não podia fazer isso, ele mandou duas amigas para falarem com vc...”

E foi isso mesmo...

Voltei pra casa com passos mais lentos e prometendo a mim mesmo que iria de algum modo colocar em prática mudanças q distanciem essas palavras do meu contexto diário...

Que bom pertencer a um Deus que nos conhece, nos aceita e nos ama como somos, mas que também nos desafia a nos tornarmos pessoas melhores, tanto para o nosso próprio bem como para o desenvolvimento do seu Reino...

Te amo Deus e amo o jeito com que cuida de mim...